Hegel

 

Hegel e o Caos que Afinal Faz Sentido: 5 Lições Provocadoras sobre a História

No ano de 1770, o tecido do tempo parecia estar a rasgar-se. Enquanto Napoleão Bonaparte aprendia a dar os primeiros passos e Beethoven nascia para revolucionar o som, Immanuel Kant publicava a sua dissertação inaugural em Königsberg. No meio desta "coincidência" cósmica, nascia também Georg Wilhelm Friedrich Hegel. Para quem observa de fora, a história é um amontoado de carnificinas e revoluções — basta olhar para o destino de Maria Antonieta, que em 1770 casava-se com pompa para terminar decapitada numa vala comum. Contudo, para Hegel, este caos é uma ilusão. Ele propõe uma tese audaciosa: a  Razão governa o mundo . Como sugere Robert Hartman, a história não é um acidente, mas a "autobiografia de Deus" — o desdobramento do  Espírito  ( Geist ) em busca da sua própria liberdade.

1. A "Astúcia da Razão" — As tuas paixões são ferramentas de algo maior

Hegel apresenta-nos a  List der Vernunft  (Astúcia da Razão). Imagine a  Razão  como uma maestrina invisível que não suja as mãos. Ela não entra em conflito direto; em vez disso, utiliza as paixões, os egoísmos e as ambições humanas como combustível. O indivíduo age movido por interesses privados, acreditando piamente que está a trabalhar para si mesmo. No entanto, sem o saber, está a realizar um objetivo universal que o transcende.Nesta perspetiva, a moralidade individual perde o protagonismo para o resultado histórico. Não importa se a intenção era "boa" no sentido privado; o que conta é o papel que essa ação desempenhou no avanço da  Ideia . Como explica o autor:"Pode-se chamar  astúcia da razão  ao facto de esta deixar as paixões trabalharem por si, enquanto aquilo através do qual ela se desenvolve paga o preço e sofre a perda... O particular é, em geral, demasiado insignificante em relação ao universal: os indivíduos são sacrificados e abandonados. A  Ideia  paga o tributo da existência e da transitoriedade não de si mesma, mas das paixões dos indivíduos."

2. O Herói Histórico — O "Sujeito" que a história usa e descarta

Na taxonomia hegeliana das "quatro espécies de homem", o  Herói  (ou Indivíduo Histórico-Mundial) é o  Sujeito  da história. Figuras como César ou Napoleão não seguem manuais de etiqueta moral; eles possuem uma intuição selvagem sobre o que o  Espírito  exige a seguir. Eles rompem a "casca" do presente porque o seu impulso interior coincide com a necessidade histórica.Contudo, o destino do  Herói  é invariavelmente trágico. Uma vez cumprida a missão, o  Espírito  descarta-os como carcaças vazias. Morrem jovens, são assassinados ou exilados. Hegel diverte-se com a pequenez dos críticos que tentam reduzir estes gigantes a diagnósticos psicológicos:"Nenhum homem é um herói para o seu camareiro... não porque o primeiro não seja um herói, mas porque o segundo é um camareiro."Esta frase, celebrizada por Hegel na  Fenomenologia do Espírito  (1807) e mais tarde ecoada por Goethe (1809), sublinha que o camareiro só vê o herói a tirar as botas ou a beber champanhe. Ele não consegue ver o  Espírito  a cavalgar.

3. A Felicidade são as "Páginas em Branco" da História

Uma das lições mais cínicas de Hegel é que a felicidade não tem lugar nos livros de história. Ele afirma que os períodos de harmonia e satisfação são "páginas em branco", pois a felicidade representa a estagnação. O desenvolvimento do  Espírito  é um "trabalho duro de má vontade contra si mesmo".A história avança através da negatividade, da luta e da destruição. Para Hegel, a nossa busca moderna por paz e estabilidade individual é irrelevante para o progresso do mundo. Onde há conforto, não há mudança; e onde não há mudança, o  Espírito  adormece. A história, portanto, é escrita com sangue e suor, não com sorrisos de satisfação.

4. Liberdade é Identidade: A distinção entre Moralidade e Ética

Hegel explode a visão liberal de que liberdade é "fazer o que se quer". Para ele, isso é apenas capricho. Ele faz uma distinção crucial entre  Moralität  (a moralidade subjetiva, o que eu sinto que é certo) e  Sittlichkeit  (a ética objetiva, a vida moral realizada nas instituições). A verdadeira liberdade só existe no  Estado .Mas cuidado: o  Estado  de Hegel não é uma tirania burocrática (o que ele chamaria de "existência podre"). O  Estado  é a organização da vontade racional. Ser livre é reconhecer a lei como a substância do nosso próprio ser. Como membro da espécie do  Cidadão , o indivíduo encontra a sua identidade na  Sittlichkeit  da sua cultura."O  Estado  é a  Ideia  divina como ela existe sobre a terra... É a união da vontade universal e essencial com a vontade subjetiva e, como tal, ela é Moral."Esta visão influenciaria tanto a "Esquerda" (Marx) quanto a "Direita" (nacionalismos do século XX), provando o poder político explosivo do pensamento hegeliano.

5. A Vítima da História — O objeto cego do progresso

Se o  Herói  é o sujeito, a  Vítima  é o  Objeto  da história. Hegel é brutalmente realista sobre o custo do progresso: a personalidade poderosa "tem de pisar em muita flor inocente" para avançar. A  Vítima  é o indivíduo comum esmagado pelo "tanque da história".O que torna a  Vítima  trágica para Hegel não é apenas o seu sofrimento, mas a sua  cegueira . Ela sofre as consequências de um processo que não compreende, agarrada a uma moralidade privada que o fluxo do  Espírito  já tornou obsoleta. Existe uma tensão permanente entre o bem-estar individual e a necessidade histórica; para Hegel, infelizmente, o segundo tem sempre prioridade sobre o primeiro. O sacrifício é o preço que a  Ideia  cobra pela sua realização no tempo.

Conclusão: Onde estamos no curso do Espírito?

A filosofia de Hegel convida-nos a ver a história como o "avanço da consciência da liberdade". Cada conflito e cada queda de um império são degraus necessários para que a humanidade se compreenda a si mesma. Não somos apenas observadores; somos os fios desta imensa tapeçaria, quer estejamos a desempenhar o papel de  HeróisCidadãos  ou  Vítimas .A questão que permanece, e que ainda hoje atormenta a ciência política, é o limite da nossa própria agência.  Se somos apenas ferramentas da Razão Universal, até que ponto temos realmente o controlo do nosso destino, ou estamos apenas a desempenhar um papel num guião que já foi escrito pelo Espírito do Mundo?


Comentários

Mensagens populares deste blogue

Visão Cristã do Superman

O ateísmo de Deus

Escritos de Maria Valtorta