A ESPERANÇA SALVÍFICA UNIVERSAL PERANTE O PECADO MORTAL
A ESPERANÇA SALVÍFICA UNIVERSAL
PERANTE O PECADO MORTAL
Vontade salvífica de Deus, liberdade
culpada e assimetria escatológica
Um estudo em diálogo com Karl Rahner,
Joseph Ratzinger, Juan Luis Ruiz de la Peña e Hans Urs von Balthasar
Resumo
Este trabalho procura articular teologicamente dois dados
aparentemente antitéticos da fé cristã: a afirmação, atestada pela Escritura e
pelo magistério, de uma vontade salvífica universal de Deus (1 Tm 2, 4), e a
doutrina, igualmente atestada, da possibilidade real de perdição definitiva
ligada ao pecado mortal. Em diálogo com Karl Rahner, Joseph Ratzinger, Juan
Luis Ruiz de la Peña e Hans Urs von Balthasar, defende-se que a articulação
correta não passa pela resolução especulativa da tensão — nem pelo otimismo de
uma apocatástase doutrinalmente afirmada, nem pelo pessimismo de uma dupla
predestinação —, mas pelo reconhecimento de uma assimetria estrutural da
escatologia cristã: a certeza da salvação é objeto de fé e de proclamação
positiva (a Igreja canoniza), ao passo que a condenação de qualquer indivíduo
nunca foi, nem pode ser, objeto de um veredito definitivo. Nesse espaço
assimétrico situa-se a esperança teologal — distinta tanto do saber quanto da
mera opinião —, que a tradição, de Orígenes a Balthasar, considera não apenas
legítima mas devida: somos obrigados a esperar a salvação de todos, sem que
essa esperança dispense a seriedade da liberdade nem relativize a gravidade do
pecado mortal.
Palavras-chave: escatologia; vontade salvífica universal; pecado
mortal; esperança teologal; apocatástase.
1. Introdução: o problema teológico
Poucos lugares da teologia sistemática expõem com tanta nitidez a
estrutura dramática da fé cristã quanto o cruzamento entre a doutrina da
vontade salvífica universal de Deus e a doutrina do pecado mortal. De um lado,
a Primeira Carta a Timóteo afirma sem reservas que Deus “quer que todos os
homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2, 4) — texto que
a tradição dogmática, contra o rigorismo agostiniano-calvinista, elevou à
categoria de princípio hermenêutico de toda a soteriologia. De outro lado, a
mesma tradição jamais deixou de ensinar que o homem, na sua liberdade radical,
pode dizer um “não” definitivo a essa oferta, consumando-se nesse “não” a
possibilidade que a linguagem teológica designa como pecado mortal e, no seu
desfecho escatológico, como inferno.
A tentação especulativa mais imediata perante esta tensão é
resolvê-la por eliminação de um dos termos: ou se dissolve a seriedade da
liberdade e do pecado numa doutrina de salvação universal necessária — a
apocatástase, no sentido técnico em que foi condenada —, ou se dissolve a
universalidade da vontade salvífica divina numa doutrina de reprovação positiva
de alguns, que a Igreja também rejeitou sempre que reapareceu sob a forma do
predestinacionismo. O presente trabalho procura mostrar, a partir da leitura de
quatro autores do século XX, que a teologia católica dispõe de um terceiro
caminho, mais exigente do que qualquer solução especulativa: o reconhecimento
de uma assimetria estrutural entre a afirmação do céu e a afirmação do inferno,
dentro da qual a esperança — categoria teologal distinta tanto da certeza
quanto da mera probabilidade — encontra o seu lugar próprio e a sua
justificação dogmática.
2. A vontade salvífica universal de
Deus como dado dogmático: Karl Rahner
2.1 Graça oferecida em toda a parte
No Curso Fundamental da Fé, Rahner situa a vontade salvífica
universal não como uma opinião piedosa mas como pressuposto dogmático,
expressamente ensinado pelo Concílio Vaticano II e decisivo para toda a
compreensão católica da história da salvação. Contra o pessimismo soteriológico
que, de Agostinho a Calvino, limitou de facto o alcance da graça, a dogmática
católica afirma uma vontade salvífica universal de Deus, “realmente eficaz e
sobrenatural”, estendida a “toda a longitude e latitude da história da humanidade”,
o que torna teologicamente necessário admitir, mesmo fora da história explícita
da revelação veterotestamentária e neotestamentária, uma possibilidade real e
não meramente hipotética de fé salvífica (RAHNER, 1989, p. 366-368). É a partir
deste pressuposto que Rahner elabora a sua conhecida teoria do “cristianismo
anónimo”: onde quer que um homem se abra, na liberdade e na graça, à
autocomunicação de Deus — ainda que sem a mediação categorial explícita de
Cristo —, aí está presente e operante o Espírito de Cristo, “causa final” de
toda a comunicação divina ao mundo (RAHNER, 1989, p. 372-373).
Importa notar que esta tese não relativiza a mediação histórica de
Cristo; pelo contrário, torna-a coextensiva com toda a história humana,
precisamente porque a encarnação e a cruz são pensadas como causa final — não
meramente eficiente e cronologicamente posterior — da efusão do Espírito
“sempre e em toda a parte” (RAHNER, 1989, p. 373). A vontade salvífica
universal não é, portanto, um princípio genérico de benevolência divina
indiferente à cristologia, mas a extensão, radicada na própria eternidade da decisão
trinitária, do acontecimento único de Jesus Cristo a toda a extensão do tempo e
do espaço.
2.2 O único limite: a culpa própria
O ponto decisivo, para o problema que aqui nos ocupa, está na
formulação precisa com que Rahner delimita o alcance dessa vontade salvífica:
ela oferece a todo o homem, “mesmo na situação posterior à queda no pecado
original”, uma salvação que “só pode vir a falhar por culpa própria pessoal”
(RAHNER, 1989, p. 178). A fórmula é rigorosa e merece ser sublinhada, porque
nela se concentra toda a estrutura teológica que este trabalho pretende
desenvolver: a vontade salvífica de Deus é, do lado de Deus, absolutamente
séria, universal e eficaz; o único fator que pode frustrá-la não provém de
Deus, de uma limitação da sua misericórdia ou de uma eleição restritiva, mas
exclusivamente da liberdade criada, na medida em que esta se realiza, contra a
graça oferecida, como recusa definitiva.
Esta afirmação tem uma consequência decisiva: a salvação,
precisamente porque é salvação de pessoas livres, “jamais acontece sem o
envolvimento das pessoas e sem o envolvimento de suas liberdades”; “a salvação
não realizada na liberdade não pode ser salvação” (RAHNER, 1989, p. 178). Não
há, portanto, contradição real entre a universalidade da vontade salvífica e a
possibilidade do pecado mortal: são precisamente as duas faces de uma única
afirmação sobre a dignidade da liberdade humana perante a graça. Deus não pode
querer salvar o homem à revelia da sua liberdade, sob pena de a salvação deixar
de ser salvação de uma pessoa e passar a ser mera manipulação de uma coisa.
3. O pecado mortal como possibilidade
real: Juan Luis Ruiz de la Peña
3.1 Da ameaça bíblica à formulação
dogmática: possibilidade, não facticidade
Em La Pascua de la Creación, Ruiz de la Peña reconstrói com precisão
a génese da doutrina do inferno, desde os testemunhos patrísticos mais antigos
— ainda dependentes de uma leitura literal dos textos neotestamentários sobre a
geena — até à crise origenista, à condenação do chamado “sínodo endemousa”
(543) e, finalmente, à formulação da constituição Benedictus Deus (1336): “as
almas dos que morrem em pecado mortal atual (...) descem ao inferno, onde são
atormentadas com penas infernais” (DS 1002, apud RUIZ DE LA PEÑA, 1996, p.
234). Ruiz de la Peña sublinha um ponto de metodologia dogmática frequentemente
negligenciado: este texto “não define, portanto, a realidade fáctica da
perdição, mas a sua possibilidade, realizável se se cumprir a condição
previamente estipulada” (RUIZ DE LA PEÑA, 1996, p. 234-235). A mesma reserva
formal reaparece, séculos depois, na constituição Lumen gentium, n. 48, onde
uma proposta que pretendia afirmar a existência de facto de condenados foi
expressamente rejeitada, mantendo-se apenas a afirmação da morte eterna como
possibilidade destinada a estimular a vigilância (RUIZ DE LA PEÑA, 1996, p.
235).
Este dado é decisivo: a Igreja, ao longo de toda a sua história
dogmática, nunca definiu que algum ser humano concreto esteja de facto
condenado — nem sequer Judas —, ao passo que não hesitou em declarar, através
das canonizações, que determinados fiéis alcançaram de facto a bem-aventurança.
Ruiz de la Peña formula esta assimetria com clareza: “a Igreja, que se crê
autorizada a proclamar a salvação definitiva de muitos dos seus membros — as
canonizações não são outra coisa —, não ousou jamais emitir paralelamente um
veredito de condenação definitiva” (RUIZ DE LA PEÑA, 1996, p. 234-235).
3.2 O inferno, obra do homem e não de
Deus
Segue-se daqui um princípio hermenêutico fundamental para toda a
doutrina da morte eterna: “o ponto de partida para uma conceção teológica da
morte eterna há de ser a sua não procedência da vontade de Deus” (RUIZ DE LA
PEÑA, 1996, p. 235). Deus não quer nem pode querer o pecado; logo, também não
pode querer nem criar o inferno, que não é senão o fruto do pecado. “O céu só
pode existir como dom de Deus; o inferno só pode existir como fabricação do
homem” (RUIZ DE LA PEÑA, 1996, p. 235-236). A pergunta teológica sobre a
facticidade do inferno resolve-se, assim, numa pergunta antropológica sobre a
real extensão da liberdade humana: é o homem suficientemente livre para pecar
mortalmente, isto é, para realizar a sua existência como um “não” irrevogável à
interpelação divina?
Ruiz de la Peña responde afirmativamente, por duas razões que
considera irrenunciáveis para a fé cristã. A primeira é a seriedade da atual
economia da graça: se a graça não se impõe por decreto mas se oferece
livremente, correndo o risco de ser livremente recusada, então a possibilidade
real do “sim” contém necessariamente a possibilidade real do “não” — sem esta,
aquele seria insustentável, e a economia salvífica converter-se-ia,
sub-repticiamente, num monólogo divino (RUIZ DE LA PEÑA, 1996, p. 236-237). A
segunda razão é de ordem experiencial: a história regista, com uma constância
que não permite ilusões, situações de “malversação do humano” que são já,
intra-historicamente, um ensaio geral daquilo que a fé designa por inferno;
negar a possibilidade do inferno metahistórico obrigaria, coerentemente, a
negar também a realidade dos infernos que já vivemos (RUIZ DE LA PEÑA, 1996, p.
237-238).
3.3 A decisão fundamental e a
definitividade da morte
Este pecado mortal, na sua estrutura interna, não se reduz a um ato
isolado e periférico, mas implica aquilo que Rahner, na sua antropologia
teológica, designa como “decisão fundamental” — a opção mais radical da
liberdade pessoal que, embora se realize sempre através de atos categoriais
concretos, os transcende e os unifica numa orientação última da pessoa perante
Deus. É esta decisão fundamental, e não a soma quantitativa dos atos, que a
morte torna definitiva: “com a morte, o posicionamento fundamental do homem,
amadurecido na liberdade, atingiu a sua validade definitiva” (RAHNER, 1989, p.
510). O pecado mortal é, pois, precisamente aquela decisão fundamental que se
consuma como recusa; e a morte eterna, a realizar-se, não será senão “o pecado
mortal consolidado e a produzir os seus frutos” (RUIZ DE LA PEÑA, 1996, p.
238), a saber, a existência sem Deus como ausência definitiva daquela comunhão
para a qual o homem foi criado.
4. A assimetria escatológica: certeza
do desígnio salvífico sobre a humanidade, possibilidade da perdição de cada
indivíduo
É neste ponto que se torna necessário articular com precisão a
diferença entre dois planos que a linguagem corrente tende a confundir: o plano
da escatologia coletiva ou universal-histórica, e o plano da escatologia
individual. Rahner formula esta distinção de modo particularmente lapidar: “uma
vez que vivemos no éschaton de Jesus Cristo (...) sabemos, pela fé cristã e na
esperança firmíssima, que a história da salvação terá êxito positivo para a
humanidade no seu conjunto, por força da poderosa graça de Deus, apesar da
dramaticidade e da abertura da liberdade do homem individual” (RAHNER, 1989, p.
511-512). No que respeita, pelo contrário, à possibilidade de o indivíduo
terminar em perdição definitiva, “não podemos nem temos necessidade de dizer
algo, a não ser que o homem (...) deve levar seriamente em conta essa
possibilidade”, sem que essa seriedade obrigue a “declarar que sabemos com
certeza que a história salvífica de determinadas pessoas terminará, de facto,
como história de não salvação” (RAHNER, 1989, p. 512). Por isso, conclui
Rahner, “não é preciso que, como cristãos, consideremos o discurso sobre o céu
e sobre o inferno como afirmações de igual valor da escatologia cristã”
(RAHNER, 1989, p. 512).
Esta assimetria não é um artifício retórico destinado a suavizar uma
doutrina incómoda; é, antes, a tradução dogmática exata da diferença entre o
que foi revelado como promessa positiva de Deus sobre o destino do mundo em
Cristo, e o que foi revelado como advertência séria sobre a real possibilidade
da liberdade criada. A promessa é objeto de fé porque tem em Deus, e apenas em
Deus, a sua causa e garantia; a advertência é objeto de vigilância porque tem
na liberdade humana, e apenas nela, a sua condição de possibilidade. Confundir
os dois planos — tratando o inferno como uma certeza equivalente ao céu, ou
tratando a salvação universal como dedução lógica da bondade divina que
dispensaria a seriedade da conversão — significa desfigurar a estrutura mesma
da revelação.
5. Ousar esperar: o pequeno discurso de
Balthasar sobre o inferno
5.1 A distinção entre saber e esperar
É precisamente sobre este espaço assimétrico — nem certeza da
salvação de todos, nem certeza da condenação de alguns — que Hans Urs von
Balthasar constrói, em Was dürfen wir hoffen? [Que podemos esperar?] e no
Kleiner Diskurs über die Hölle [Pequeno discurso sobre o inferno], a sua
reflexão mais controversa e, ao mesmo tempo, mais rigorosamente ancorada na
tradição dogmática. Respondendo aos críticos que o acusavam de minar a
seriedade da conversão ao sugerir que todos poderiam salvar-se, Balthasar precisa
com exatidão o estatuto epistémico da sua tese: “jamais falei de certeza, mas
de esperança” (BALTHASAR, 1999, p. 13). A distinção não é meramente verbal.
Esperar contra um saber certo seria, com efeito, absurdo — e é essa a objeção
que os seus críticos lhe dirigem, invocando os inúmeros textos
neotestamentários sobre a geena, as trevas exteriores e o castigo eterno. Mas
Balthasar responde que tais textos, tomados na sua função própria, são ameaças
condicionais, dirigidas à liberdade de cada um, e não descrições antecipadas de
um resultado já decidido: “se Deus apresenta a Israel os dois caminhos,
segue-se necessariamente daí que Israel escolheu o caminho da perdição?”
(BALTHASAR, 1999, p. 14).
A distinção entre a apocatástase como doutrina especulativa — que
pretenderia saber, com necessidade metafísica, que todos hão de salvar-se, e
que foi por isso justamente rejeitada pelo magistério — e a esperança teologal
de que todos se salvem — que não pretende saber nada com necessidade, mas
confia, na incerteza própria de toda a esperança, na misericórdia infinita de
Deus — constitui o núcleo especulativo de toda a sua argumentação. É esta mesma
distinção que permite a Balthasar recolher, sem contradição aparente,
testemunhos tão diversos como o do exegeta Joachim Gnilka, para quem Paulo
“teve, pelo menos alguma vez, a ardente esperança de que todos os homens
alcançariam a salvação”, esperança que “hoje também nos é permitido manter
viva” (apud BALTHASAR, 1999, p. 169), desde que traduzida em solidariedade
efetiva.
5.2 A obrigação de esperar por todos
Mais radical ainda é a tese de que esta esperança não é meramente
permitida, mas devida — que constitui, para o cristão, uma verdadeira obrigação
moral e teologal. Balthasar cita, a este propósito, uma fórmula do próprio
Rahner que sintetiza com precisão insuperável toda a tensão aqui em jogo:
“Temos de manter juntas e com toda a sua força aquelas frases que falam sobre o
poder da vontade universal de Deus pela salvação, sobre a redenção de todos por
Cristo, sobre a obrigação de esperar a salvação de todos, e aquelas outras que
o fazem sobre a verdadeira possibilidade de uma perdição eterna” (apud
BALTHASAR, 1999, p. 168). Não se trata, portanto, de escolher entre a seriedade
do pecado mortal e a esperança universal, mas de as manter unidas, em tensão
não resolvida, como duas afirmações igualmente exigidas pela fé.
O fundamento último desta obrigação é o próprio mandamento do amor.
Quem admite tranquilamente, como possibilidade que não lhe diz respeito, a
condenação eterna de outrem, “não sabe o que é o amor desinteressado”
(BALTHASAR, 1999, p. 167): o amor cristão não pode instalar-se confortavelmente
perante a perdição do irmão, mas é chamado a “aceitar cada homem com todo o seu
valor” e a encontrar nessa aceitação “a sua própria e definitiva alegria”
(BALTHASAR, 1999, p. 167). A esperança universal não é, deste modo, uma atitude
de indiferença moral perante o pecado — como se “tudo desse igual” —, mas
exatamente o contrário: é a forma mais exigente do amor ao próximo, que se
recusa a desistir antecipadamente de ninguém, “sempre disposta a esperar pelos
outros” (BALTHASAR, 1999, p. 167-168).
5.3 O paradoxo místico
Balthasar reconhece, sem o dissimular, o paradoxo que esta esperança
comporta quando confrontada com a experiência de numerosos santos e místicos —
de Catarina de Sena a Teresa de Ávila — que combinaram uma vivência pessoal
intensa da possibilidade da condenação com uma súplica incondicional pela
salvação de todos os homens, sem exceção. Catarina de Sena confessa ao seu
confessor Raimundo de Cápua não conseguir compreender “como poderia um só
daqueles que Deus criou, à sua imagem e semelhança, perder-se e escapar das
suas mãos” (apud BALTHASAR, 1999, p. 170), acrescentando que preferiria fechar
ela mesma as portas do inferno para que ninguém nele entrasse. Esta postura não
é ingenuidade otimista; é, antes, a tradução espiritual exata da tese dogmática
que aqui se defende: a certeza teórica da possibilidade do inferno não
dispensa, mas antes exige, a prática incondicional da esperança e da
intercessão por todos.
6. O primado da graça e o “definitivo”
em Cristo: Joseph Ratzinger
6.1 A descida aos infernos como
solidariedade radical
Se Rahner fornece o quadro dogmático da vontade salvífica universal,
e Balthasar a sua tradução na virtude teologal da esperança, Ratzinger
acrescenta, em Introdução ao Cristianismo, uma fundamentação cristológica
decisiva, a partir da meditação sobre o artigo “desceu aos infernos”. Ratzinger
define o inferno, com uma precisão fenomenológica notável, não primariamente
como um lugar de castigo físico mas como estrutura de solidão radical: “aquela
solidão à qual não pode chegar o amor é o inferno” (RATZINGER, p. 143). O
pecado — e, no seu grau extremo, o pecado mortal — é, nesta chave,
essencialmente autoexclusão: “só o excluir, o fechar-se voluntário é inferno”
(RATZINGER, p. 143). Esta definição confirma, a partir de outro ângulo, a tese
já encontrada em Ruiz de la Peña: o inferno não é imposto por Deus como
sentença externa, mas é a consumação lógica de uma liberdade que se fecha sobre
si mesma, recusando a única relação — a comunhão de amor — para a qual foi
criada.
Mas é justamente aqui que a fé cristã na descida de Cristo aos
infernos adquire o seu peso teológico específico: “Cristo atravessou as portas
da nossa solidão derradeira; na sua paixão desceu ao abismo do nosso abandono.
Onde voz alguma está em condições de alcançar-nos, ali ele se encontra”
(RATZINGER, p. 143). Se o inferno é, por definição, o lugar onde o amor já não
chega, a afirmação de que Cristo ali desceu significa que já não existe, em
sentido absoluto, um lugar fechado ao amor — o que não anula a possibilidade da
autoexclusão livre do homem, mas situa-a definitivamente dentro do horizonte de
uma graça que já a precedeu e que continua, até ao limite extremo, a
oferecer-se. É esta a base cristológica mais funda da esperança de que fala
Balthasar: não uma confiança genérica na bondade divina, mas a confissão
concreta de que o próprio Cristo desceu até ao ponto mais extremo da recusa
humana.
6.2 O primado da aceitação sobre a obra
Um segundo motivo ratzingeriano relevante para a nossa questão é o
chamado “primado da aceitação” sobre a ação: o homem não se realiza
primariamente por aquilo que faz, mas por aquilo que recebe — o amor não se
produz, espera-se e acolhe-se como dom (RATZINGER, p. 219-220). Este primado
não relativiza, em Ratzinger, a seriedade da liberdade e da resposta moral do
homem — Ratzinger sublinha expressamente que “recusando essa mercê, o homem
destrói-se a si mesmo” (RATZINGER, p. 219) —, mas situa a possibilidade do
pecado mortal dentro de uma estrutura mais originária, que é a da gratuidade
divina. O “definitivo” que Deus estabeleceu em Cristo não é um limite fechado,
mas “um espaço aberto” (RATZINGER, p. 216-217) destinado a acolher a humanidade
inteira. É este carácter aberto e não concluído do definitivo cristológico que
fundamenta, também do lado da cristologia, a legitimidade da esperança
universal: o “sim” de Deus em Cristo já aconteceu, definitivamente, para todos;
resta que a liberdade de cada um se deixe, ou não, alcançar por ele.
7. Síntese teológica: articulação entre
a seriedade do pecado mortal e a esperança salvífica universal
Reunidos os quatro percursos, é possível propor a seguinte
articulação sistemática, que não pretende dissolver a tensão constitutiva do
problema mas nomeá-la com precisão.
Primeiro, a vontade salvífica de Deus é, do lado de Deus,
absolutamente universal, séria e eficaz (Rahner); não conhece limites de
espaço, tempo ou pertença institucional explícita, e tem em Cristo — na sua
encarnação e cruz, entendidas como causa final da comunicação do Espírito — a
sua única e suficiente mediação.
Segundo, esta vontade salvífica não anula, mas antes pressupõe e
honra, a liberdade humana; por isso, o único fator que pode frustrá-la é a
culpa pessoal, entendida não como um ato isolado e periférico mas como decisão
fundamental que, na morte, atinge a sua validade definitiva (Rahner). O pecado
mortal, nesta chave, é rigorosamente definido pela tradição dogmática — de
Bento XII à Lumen gentium — como possibilidade real, jamais como facticidade
definida ou conhecida de algum indivíduo concreto (Ruiz de la Peña).
Terceiro, esta possibilidade não é criação nem vontade de Deus, mas
fabricação exclusivamente humana (Ruiz de la Peña); teologicamente, o inferno
define-se não como castigo extrínseco mas como consumação de uma solidão
auto-imposta, à qual — por definição — o amor já não chega (Ratzinger).
Precisamente por isso, a descida de Cristo aos infernos assume um valor
teológico decisivo: não elimina a possibilidade da recusa livre, mas garante
que nenhum abismo humano ficou, de facto, fora do alcance da solidariedade
divina.
Quarto, desta estrutura decorre uma assimetria escatológica
irredutível: a Igreja proclama positivamente, através das canonizações e da fé
no destino final da humanidade em Cristo, a certeza da vitória da graça sobre a
história tomada no seu conjunto; nunca, em contrapartida, definiu ou pretendeu
saber que algum indivíduo concreto está de facto perdido (Rahner, Ruiz de la
Peña). É neste espaço, estruturalmente assimétrico e não numa concessão
pastoral a um otimismo fácil, que se situa a virtude teologal da esperança tal
como Balthasar a articula: distinta tanto da certeza especulativa da
apocatástase — doutrina justamente rejeitada, porque pretende saber o que não
pode ser sabido — quanto da resignação que aceita com serenidade a perdição
alheia — atitude que, segundo Balthasar, é incompatível com o próprio conceito
cristão de amor.
Quinto e último, esta esperança não dispensa, antes exige, a
seriedade pastoral e ascética da doutrina sobre o pecado mortal e o inferno:
precisamente porque a possibilidade é real, a vigilância, a conversão e o
anúncio claro da gravidade do pecado permanecem irrenunciáveis (Ruiz de la
Peña; Balthasar via Rahner). A esperança salvífica universal, corretamente
entendida, não é o contrário da doutrina do pecado mortal, mas a sua
consequência teologal mais exigente: só porque o pecado mortal é uma possibilidade
real e não uma mera figura de retórica, a esperança de que ninguém sucumba a
ele é uma esperança séria, custosa, e por isso mesmo — segundo a fórmula
lapidar de Balthasar — não apenas permitida, mas mandada.
8. Conclusão
O confronto entre a vontade salvífica universal de Deus e a real
possibilidade do pecado mortal não constitui, à luz destes quatro autores, uma
contradição a resolver por via especulativa, mas uma tensão dramática a habitar
teologalmente. A tentação de a resolver por excesso — afirmando
doutrinariamente que ninguém se perde — dissolveria a seriedade da liberdade
humana e contradiria a advertência constante da Escritura e do magistério; a
tentação inversa — afirmando ou pressupondo que a maioria, ou sequer um único
homem determinado, está de facto condenado — excederia o que foi revelado e
contradiria a própria estrutura assimétrica da escatologia cristã, que a Igreja
jamais transgrediu em dois mil anos de magistério.
O que resta, entre estes dois excessos, não é uma zona neutra de
agnosticismo confortável, mas o espaço próprio da esperança teologal: uma
virtude que, precisamente porque não é saber, exige de quem a vive um
compromisso mais radical do que a certeza dispensaria — a oração incessante, a
caridade sem exclusões, e a recusa de instalar-se, perante o destino eterno de
qualquer homem, numa indiferença que a tradição unânime, de Rahner a Balthasar,
considera simplesmente incompatível com o Evangelho.
Bibliografia
RAHNER, Karl.
Curso Fundamental da Fé: Introdução ao Conceito de Cristianismo. Trad. Alberto
Costa. São Paulo: Paulinas, 1989 [orig. Grundkurs des Glaubens. Freiburg:
Herder, 1984].
RATZINGER,
Joseph. Introdução ao Cristianismo. Trad. José Wisniewski Filho. [orig.
Einführung in das Christentum. München: Kösel-Verlag, 1968].
RUIZ DE LA
PEÑA, Juan Luis. La Pascua de la Creación: Escatología. Madrid: Biblioteca de
Autores Cristianos, 1996.
VON BALTHASAR, Hans Urs. Tratado sobre el Infierno (Compendio): ¿Qué podemos esperar?; Pequeño discurso sobre el infierno; Apokatástasis. Trad. Salvador Castellote Cubells. Valencia: Edicep, 1999 [orig. Was dürfen wir hoffen?; Kleiner Diskurs über die Hölle; Apokatastasis. Einsiedeln/Freiburg: Johannes Verlag, 1997].
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